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sábado, 29 de setembro de 2018

É acordar a meio da noite com a sensação de ainda faltar metade da prova...
É isso mesmo...
É isso o Trilho das Dores...
Já passaram uns dias, mas por vezes sinto que estou a deixar o 3ºabastecimento para aquela que é a parte mais dura da prova...
Decidi curtir a prova ao máximo este ano, levar a Gopro e tudo, estava em forma, achava que 04.00h iam chegar para terminar, NAS CALMAS...
A prova era em sentido inverso ao do ano passado, ouvi dizer no briefing que seria mais rolante este ano pelo menos até ao km15, desconfiei logo, sei que não se pode confiar em ninguém neste desporto, muito menos na malta da organização. É dada a partida, aproveito para fazer uns filmes que a saída era a descer, os ritmos eram altos, até os últimos iam depressa, achei que estavam todos acima do ritmo e ia haver muitas baixas, os primeiros 5km foram feitos em 28 minutos, com Gopro a mistura, vinha de lá canelada, um primeiro abastecimento recheado de fruta que todos ignoravam por estar tão cedo, levou-me logo 5 minutos de prova, se há vagar para correr, temos o dobro do tempo, para comer. Soube ali que os abastecimentos estavam de 5 em 5 kms, achei que seriam abastecimentos demais, mas, decidi acreditar. Saio do abastecimento e damos início às primeiras subidas de prova num carrocel louco de parte pernas em esquerda/direita, o calor começa a espreitar e ainda só são 10.00h da manhã, tinha as pernas pesadas, subidas que normalmente faço a correr estavam a obrigar-me a caminhar, e devagar  percebo que o tempo de prova se calhar não vão ser as tais 04.00h, mas decido acelerar nos primeiros 15kms de prova para ganhar algum tempo e aliviar nos últimos 20, ao km 10 estava lá de facto mais um abastecimento, PERCURSO PARA A DIREITA ABASTECIMENTO PARA A ESQUERDA, escolhi virar a esquerda 🤪, era o penúltimo do ano passado, onde participantes caiam que pareciam tordos, tchiiiii, olha ali o branquinho onde eu estive a rezar o ano passado 🙏🙏🙏 😂😂😂
Um Aparte, neste abastecimento vejo que há Tailwind, ao contrário daquela merda da Prozis que nos dão na maioria das provas, PARABÉNS por isso 😎💪
Fruta, TAILWIND nos dois bidons/bidões *ainda não sei bem como isto se escreve, e siga para o carrocel, sabia que até ao km 30 ia ser levar lambada, o Trilho das Dores começava ali, rumo ao km15, percebo que os ritmos estão perdidos, sou ultrapassado aí por 10 atletas sempre que era a descer, que conseguia alcançar nas subidas, o cenário era triste, onde o ano passado tínhamos a subida mais dura de prova, este ano tínhamos um cenário queimado que afetou aquela zona dias antes da prova, na descida para o km15 vejo que está lá a minha assistência 😎💪 que sempre motivadora, as primeiras palavras que me diz são SÓ AGORA? 🙄😢
Bem, 15km em 1.45min, desculpa lá o atraso 🤪 dois dedos de conversa e sigo viagem, por um túnel de canas de bambu que cobria uma ribeira seca e cheia de areia rumo ao sobe e desce lateral que me partiu todo, as cãibras apareceram, faz exactamente 1 ano que não tinha cãibras em prova nenhuma, as Dores estavam mesmo prontas para dar cabo de mim, fui forçado a tirar gás se não ia ser uma caminhada gigante até ao fim, quando os percursos se encontram, já debaixo de um calor tórrido, vejo a malta dos 20km toda amassada 😁😁😁 vi que não está assim tão mal 😎😎😎 Ultrapassar dá moral a qualquer um e foi assim até ao abastecimento do km20.
Um pé no abastecimento e BUMBAS, o abastecimento dominado pelo amigo Luís não podia faltar uma preta fresquinha 😎 ali, naquele PAC, era possível perceber que estávamos no Trilho das Dores, eram 10, com cara de 😭🤤😶😐😥😪😰😵😳😱 que iam desistir 😎
Vejo chegar um "vassoura" e penso, este é o momento alto da minha carreira desportiva 😂 fui tranquilizado quando me dizem que era o vassoura do percurso curto e não do meu ... Tento arrastar comigo alguns atletas que queriam desistir, tentei engana-los para ver se chegavam pelo menos ao próximo abastecimento, nah, aquela malta já so saia dali de carro, a subida que seguia o abastecimento era dura, e difícil, os caminheiros pareciam almas de outro mundo que se arrastavam por ali, quando passava por eles e os incentivava dizendo "força, está quase", simpaticamente me respondiam com um "FODASSE" no lugar de um obrigado 😂😂😂
O sol estava a pino, o calor era abrasador, para mim, já estava bom, podia acabar ali a prova.
Calor aliado ao piso do Trilho Das Dores, é um. Sonho para destruir os pés 
Finalmente arranjo companhia, um atleta que sempre foi próximo do meu ritmo decide dividir o fardo comigo, ficou mais fácil a prova, em conversa os kms passavam sem darmos por eles, alcançamos o último dos Abastecimentos de forma fácil e a um bom ritmo, só faltava SUBIRRRRRR aquilo tudo até chegar ao alcatrão e voar até à meta.
O Trilho das Dores estava mais uma vez concluído, com muito esforço novamente, com muito calor, mas com menos uma hora de prova em relação ao ano passado. Fiquei feliz, mas não satisfeito, sinto que ainda temos contas para ajustar no ano que vem 😎
Após a meta, a bela da sopa e da bifana deram força para mais 120km de carro 🤪💪😎
O Trilho das Dores que se cuide que eu para o ano quero voltar novamente. E prometo comer menos ao pequeno almoço 😂😂
A equipa Trilho Perdido na pessoa do Luís Silva e do Rui Batista, muito obrigado por tudo. Nunca deixem de nos surpreender com o magnifico trabalho que nos faz voltar 💪💪💪
O Trilho das Dores é mágico amigos, acreditem em mim!






#NOSVAMOSLAESTAR

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Respeito Pela Montanha...

No Trail não procuramos os melhores tempos, procuramos os melhores, mais duros e perigosos desníveis.

Não procuramos deixar os outros atletas para trás uns quilómetros, procuramos apenas deixar quilómetros para trás.

No trail não procuramos o trançado mais rápido, procuramos o mais bonito, o mais desafiante.

No Trail, conversamos enquanto corremos, comemos , bebemos , sofremos, choramos e rimos com companhia.

O Trail não é uma disciplina, é uma forma de estar, de gente que arrisca, que vive , que sente, de gente livre.

Os corredores de Trail não saem para treinar 10km ou 22km ou 42km, nós saímos para treinar e podemos demorar horas até voltar para casa.

O corredor de Trail não tem lesões, tem histórias.

No Trail, não ambicionamos uma medalha no final da corrida, mas esperamos encontrar aquele tipo que nos ultrapassou e com o qual combinamos beber uma cerveja na chegada a meta.

Um corredor de Trail pergunta ao parceiro do lado se está tudo bem, se precisa de alguma coisa, dá - lhe o seu último gole de água e seguem os dois com sede.

O Trail não é masculino ou feminino, é para quem está disposto a arriscar.

O corredor de Trail, não evita uma poça de água, vai voluntariamente refrescar os pés, mesmo que esteja a chover.

O Trail não se treina, pratica-se.

O Trail não se corre só com as pernas, mas também com o coração e com a cabeça.

O Trail não é unicamente um desporto, é um estilo de vida, uma forma de estar, e uma forma de respeito gigante pela montanha.


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Sê...

Sê...
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma montanha, sê um arbusto no vale mas sê, o melhor arbusto na margem do rio.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva e dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada, sê apenas um caminho.
Se não puderes ser o Sol, sê apenas uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso…
Mas sê o melhor no que quer que sejas.


terça-feira, 22 de maio de 2018

UTSM 2018

UTSM 2018
Para mim, foi mais que uma prova.... Muito mais que uma prova....
Não tinha espectativas nenhumas, ia correr em "casa", caras conhecidas não me iam faltar, ia-me apenas faltar o apoio da minha mulher PAC a PAC, desta vez, ela arrancava no dia seguinte de manhã para a sua prova. Em substituição, tive o apoio dos meus pais, sacanas dos velhos provaram que ainda aguentam uma noite de directa sem ir a cama 😂
O UTSM, arranca com dois pés esquerdos, depois de um dia de trabalho pesado, sem conseguir descansar nada, mesmo antes da partida, a cinco minutos da partida, vejo que tenho o dorsal dentro da mochila, pois o porta dorsal ficou em casa e alfinetes não havia por ali, saio da manga de partida a correr para ir buscar dois alfinetes e mesmo a entrar na zona dos balneários, chão escorregadio, e bumbas, uma queda aparatosa, fiquei cheio de dores num joelho, de verdade que não chorei por vergonha, a coisa foi mesmo feia

(mesmo antes de me deitar ao comprido)

Bem, sacudi o pó, regressei a manga de partida de "rabo entre as pernas" e preparei-me, umas últimas palavras de força aos amigos estreantes na distância, e aí vamos nós, rumo a Serra Fria, o UTSM tinha arrancado 😎
Sabia o que me esperava, achava eu 😂 pelo menos até Castelo de Vide, não me enganei nada, fui sempre solto e tranquilo, a curtir aquilo de verdade, tanto que me esqueci de comer 😮 mas já lá vamos...
Saio de Castelo de Vide, sabia que a primeira subida a sério seria o assalto a Marvão, ia reduzir o ritmo nesse troço para chegar com alma a calçada que ascendia ao castelo...
Um murro no estômago 😣
Um verdadeiro murro no estômago, quando ao km33 e já a avistar Marvão lá bem no alto, e a descer um trilho até fácil, oiço exactamente o barulho de um pau a estalar, olho para trás e ainda vejo o senhor que seguia atrás de mim a cair, rapidamente volto para lhe prestar auxílio, no meio de gritos e pânico, o pior dos cenários tinha acontecido, o companheiro que me seguia, tinha acabado claramente de fraturar o fémur, de uma forma que eu nunca tinha visto, e sou um tipo de estômago rijo, mas ali, senti uma explosão de adrenalina e só queria chorar, achei mesmo que preferia ser eu a estar na posição dele, saio a correr até a estrada onde estava um carro para pedir ajuda, e no meio de tanto azar, por sorte, está a chegar um carro de bombeiros, tudo na hora, o auxílio não podia ter sido melhor e mais rápido, a ambulância chega em minutos, o cenário não era bonito, preferi ficar até saber que efectivamente estava encaminhado. Sai dali, completamente destruído, esse era o termo, fiquei com medo de correr á noite, não me saia da ideia, o que fazia se o mesmo me acontecesse a mim, passados uns metros, decidi desistir, voltei até a estrada, para pedir boleia ao carro que ainda lá estava, que por acaso, era o pai de um amigo. Teve a capacidade que eu não tive, acalmou-me, relembrou-me que os meus pais me esperavam em Marvão, que fosse até lá em caminhada e lá sim, decidia se efectivamente desistia, sai em caminhada, pensei muito sobre o que tinha acabado de acontecer e aí, decidi terminar a prova por ele, que tinha tido aquele azar e ia deixar o seu sonho por terra, mesmo sem saber quem era, o meu UTSM 2018, ia ser inteiramente dedicado a ele.
Na chegada a Marvão, e ao encontrar os meus pais, eles já sabiam do sucedido, os bombeiros levaram a mensagem de que eu queria desistir devido ao que tinha acontecido, motivaram-me, já tinham notícias para me dar, o quadro era complicado, mas o parceiro já estava no hospital, mas eu já tinha decidido, ia até ao fim, por ele 💪
Saio de Marvão e ainda espero alcançar São Julião ao km57 até às 09.00h para ver a partida da Maratona e desejar sorte aos amigos, azar do caraças, só já vi as costas ao "vassoura", falhei por minutos... Abastecimento da canja e da açorda 😁 BASE VIDA, como tipo exigente que sou, tinha tudo para mudar no meu saco, até que, tudo menos meias 😂😂😂
MEIAS, ALGUÉM TEM UMAS MEIAS A MAIS?
E um tipo mesmo ao meu lado, bumbas, aí vêm umas meias emprestadas, tamanho 46, mas era melhor que nada, no entretanto, chega o colega de equipa Rentes, que por sorte, tinha uma meinha a mais e mesmo ao meu tamanho
Untei os pés assim ao estilo de uma torrada com manteiga dos dois lados, meia nova, sapato novo, tche, ainda vou ganhar isto 😂
Despeço-me dos meus pais, e saio com o Rentes e o Pimpão, vamos ao resto, só falta um bochecho, e agora de meia seca, UI UI E passados 600 metros, água até ao joelho, ora aí está, meia nova molhada, sapatilha nova molhada, já não ganho isto 😂
Na subida que nos levava até as famosas antenas de São Mamede, deixo para trás os parceiros que comigo tinham saído do PAC, QUE SOVA, QUE SOVA, QUE SOVAAAAA, fiquei sem água, quando avistei as antenas, julgava ser lá o abastecimento, bebi tudo a ganância, andei mais de uma hora sem água, mentalmente deitei a toalha ao chão, ofendi "seca e meca", ralhei tanto com tudo que até as antenas se encolheram a minha passagem 😈
Abastecimento das antenas, ÁGUA, DÁ AI ÁGUA 😂😂 Atestei até caber, infelizmente o amigo Pimpão chega num carro de bombeiros, o calor tinha feito estragos, optou por adiar o UTSM por mais um ano, sensato da parte dele, eu por vezes gostava muito de ter a capacidade e a coragem de desistir, em seguida chega logo o Rentes, esse ainda a cavalo nas sapatilhas, e vinha bravo 😎 como chegou arrancou, eu fiquei por ali a dar uma léria com a malta, já não me apetecia muito correr, a verdade era essa, já estava de barriga cheia 😂
Bem, mas vamos lá, isto está feito, achava eu, acho que o UTSM, começou ali, no PAC das antenas, a serra "arregaçou" as mangas, estava pronta para me amarrutar todo 😵
Até Alegrete, a coisa até se fez, com o estrago normal que a distância já implicava, mas não havia nada demais, mas atão de Alegrete para o Reguengo, ou as subidas cresceram este ano, ou os gajos mandaram afundar os vales, não têm fim, é sempre a subir, e a subir bem, já tinha entregue a alma ao diabo, já ia pendurado dos bastões, só já corria a descer, e era porque não conseguia travar 😂
Ia um tipo castiço a minha frente que em tom de desabafo me diz, "bem, vou ligar a mulher a dizer que já não chego às 17.00h"
E o tipo ligou, mas era um tipo do norte, a conversa foi mais: "C@r@lh0 oh amor, é com cada P#t@ de subida, já não estou aí a horas nem o C@r@lh0" 😂😂😂
Eu só já queria chegar ao Reguengo, o martírio tinha de acabar, cheguei ao início de uma descida, e olho em frente, vejo umas t-shirts coloridas, bem lá no alto de uma subida, pensei, não é para mim, aqueles tipos estão enganados, só pode, pode pode, BUMBAS, mais sova, um SUBIDAO... Olha juntei-me ao nortenho e dividimos os palavrões 😂😂😂
Reguengo 👏💪
Está feito, mãe, pai, despachem-se, daqui nada estou lá, avisem todos, o TUYA vai levar mais uma medalha de cortiça para casa 😎 as dores aliviaram logo, enchi uma mão de gomas, vamos lá... No alcatrão estava escrito a tinta "ÚLTIMA SUBIDA", desconfiei, mas acreditei, as pernas queriam cada vez mais gás, nas azinhagas a chegar a Portalegre, já sabia onde estava, o que faltava, o coração estava do tamanho do mundo, ao entrar no estádio, lá estava ela, na fila da frente, a minha mulher, e a 'mana banana', grita "ESTÁ FEITA", só faltava a volta ao Tartan do estádio, tinha lá os meus pais, alguns amigos, e a medalha de cortiça, já dedicada, a quem não pode terminar a prova...
Foi um UTSM, muito muito difícil, mas muito muito bom.
Infelizmente, não sei quem era o companheiro que sofreu a queda, nem o nome, nem o dorsal, mas fiz questão de confessar aos meus botões, que lhe dedicava toda a minha superação naquele dia e que fazia votos para que a sua recuperação fosse rápida.
O UTSM, foi um murro no estômago, mas foi mais uma experiência BRUTAL, vim novamente muito mais rico, aprendi a valorizar muito mais tudo o que tenho e tudo o que consigo.
A todos o FINISHER e a todos os DNF, parabéns, só o acto de inscrever para uma prova destas já diz muito sobre vocês 😎

UTSM 2018 102km
17:53:42h

segunda-feira, 9 de abril de 2018

III TRAIL Rayano Vila Nova Del Fresno

III TRAIL Rayano Vila Nova Del Fresno


De migalhas se faz pão…

Uma prova pequenina, modesta, sem luxos, longe das luzes dos holofotes…

E tão grande que foi, que organização de luxo, chegar e sentir que ali havia gente apaixonada pela modalidade foi notório.

Um secretariado onde todos se desdobravam para que tudo corresse bem, uma zona de partida modesta, mas organizada, um percurso QB "quanto baste", abastecimentos á medida da prova em questão, meios de apoio de protecção civil na totalidade do percurso, um pós-prova simplesmente fantástico, fui tão bem recebido, e isto tudo, numa aldeia, pequena, em Espanha, fui tão bem recebido...
Francisco Camilo Fuentes, agradeço-te e dou-te os parabéns a ti, mas peço-te que estendas este meu agradecimento a quem contigo colaborou nesta festa, foram enormes, nunca uma prova me surpreendeu assim. Com tão pouco se fez tanto 💪
Em relação ao percurso, é o meu tendão de Aquiles, consegui manter o pedal nas zonas mais perigosas de prova, onde o terreno técnico e escorregadio jogava a meu favor, perdi o fôlego quando o terreno abriu e deu vantagem aos mais rápidos, mas até aí consegui desfrutar 😉
Fica o registo, de uma primeira viagem ao lugar mais alto do pódio, que apenas tenha conseguido alcançar dentro do escalão, mas levo a risca o velho ditado, ganhar nem que seja a feijões, e que me chame de arrogante aquele que diz que ganhar ou perder é igual 😂😂😂

Villanueva, deixei aí uma costela, prometo voltar para o ano, muitos, muitos parabéns



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Trilhos dos Abutres 2018

Trilhos dos Abutres 2018

Eles estavam lá, bem no alto, eles estavam lá, a espera de me ver cair...

Miranda do Corvo, numa manhã gelada. A "pandilha" estava lá toda, o velho Garcez por entre dentes não perdia a hipótese de me mandar abaixo, foram várias as vezes na manga de partida que ouvi, "é hoje que não chegas ao fim"... O Cunha, igual, ameaçava "caçar-me" lá para os 30km's, dizia que eu ia rebentar a meio caminho, o normal, aquela malta aguarda ansiosa pelo dia em que o homem do #NOSVAMOSLAESTAR chegue a uma meta de carro. Tiveram azar, ainda não foi desta...

Abutres na dose certa, uma partida em massa, bem pelo coração de Miranda do Corvo separava os atletas, rápidos para a frente, os peregrinos para trás, uma subida em Z transportava-nos até a Pirâmide, uma estrutura de forma egípcia bem lá no cimo da serra foi a apresentação ao que se seguia, os Abutres iam ser a doer, descidas em estradão largo convidavam a descidas a velocidades alucinantes, era um escape para deixar alguns atletas para trás. Km16 PAC CARDEAL, a malta mais sabida começa a dizer que os Abutres começam ali, e eu a fazer contas, os Abutres para mim começaram a duas horas. Eram 12km até ao próximo abastecimento, a coisa estava a lascar, o terreno sempre mole, pesado, escorregadio, PERIGOSO, atrasava o passo e mastigava os músculos mas ainda não tirava a vontade. Single tracks cheios de água, pés molhados, sapatilhas cheias de lama, João, hoje vais sofrer, as subidas começam a mastigar de verdade, era tudo de mão no joelho, nariz apontado ao chão, olhava para o céu, eles estavam lá...

O frio era cortante, abrandar o passo significava ter de aguentar a temperatura baixa que se fazia sentir, os pés já doíam, os músculos já accionavam o alerta cãibra, estava na altura de ser caçado, mas nem sinal do Cunha, EU ESTOU MUITA FORTE 😂

Tive uma partida tranquila, não entrei em loucuras, e isso estava a dar cartas a meio caminho, sempre tive força e coração para enfrentar os duros Abutres, mas já pensava, demais, a lenga lenga do costume, "nunca mais cá venho", "isto é só penar", dei uma boa mão cheia de F0d@ss€ para o ar, mas era a minha cruz terminar os Abutres.

Comecei a sofrer, de verdade, não queria tirar "gás" mas já ia a sofre, olhava para cima e lá estavam eles, voando em círculos, a espera...

Disse que ainda não era hora, enfrentei pontes de madeira escorregadias, trilhos rochosos perigosos, água gelada, sempre a olhar para trás, ele não me ia apanhar, não naquele dia. O público durante todo o caminho era BRUTAL, a malta puxava de verdade por nós, havia palmas, sorrisos, gritos, megafones, tambores, chocalhos, eles só queriam fazer barulho e nós só o queríamos ouvir, era a distração para um bom par de metros que ficava mais fácil.

Abastecimentos do catano, SOPA, B'FANA, BARRAS, GÉIS E CENAS MARADAS 😎 tratei de 4 sopas e 2 b'fanas pelo caminho, a coisa estava bem organizada, havia mão de obra a sobrar nos abastecimentos, ah, e era mão de obra simpática, atenta, prestável e motivadora, fui sempre sozinho, mas sentia-me bem acompanhado nos abastecimentos, gosto disso.

Miúdo, faltam 10km's, aguenta-te até ao fim, já estava todo EMPANADO, mas levava umas ganas do caraças, uma descida brutal, de 6km, sempre a destruir fibra, os pés dançavam em cima de uma nata louca de folhas esmagadas e lama, as pernas tremiam como varas verdes já frágeis do desgaste acumulado, EHHHHJ, um abastecimento a 4km's da meta, pedi para me prometerem que já não se subia mais, confirmaram, elevou-me o ego, mas eu sabia que provavelmente não era verdade😂 Neste abastecimento a 4km da meta, sorte do caraças, estava lá um velho castiço, acabado de sacar uma linguiça de um fogareiro 😍 Dá-me um bocadinho? TODA ATÉ SE VOCÊ QUISER!!! Eh homem do catano, roubei-lhe um bocadinho de linguiça, uma fatia de pão, recusei o vinho, despedi-me com um até para o ano e lancei-me para um atasqueiro de 3km de lama até ao joelho, os Abutres estavam feitos, pés no alcatrão, 1km para a meta, 1km a rasgar, o km mais rápido dos 50 que ia terminar, a meta, o público, o Speaker, a elite, todos lá, palmas, muitas palmas, alegria, a MEDALHA, A TÃO DESEJADA E PESADA MEDALHA.

Sou finisher do Ultra Trilho dos Abutres 50km com 7h56min e uma experiência dos diabos.

E eles continuavam lá, bem no alto, eles estavam lá, a espera de me ver cair...os Abutres! Mas ainda não foi este ano 💪

Video de prova: https://www.prozis.com/pt/pt/athlete-page/q/dorsal/430/eventid/566?ot=ATRPABUTRES#.WndR1XQh9Pc.link

Crédito das fotos:

-Bernardete Morita
-Miro Cerqueira

#NOSVAMOSLAESTAR





terça-feira, 4 de julho de 2017

Grão a Grão, havemos de chegar a Tróia!

Já passou algum tempo, eu sei, custou a desmoer este empeno, a Ultra Melides-Troia, era mesmo como me tinham dito, dai só agora ter "paciência" para voltar a falar nela.

06.00h da manhã, toca o despertador, lá fora estava um dia cinzento, frio, durante a noite tinha acordado com o barulho da chuva que caia, mas que diabo, estes gajos diziam que iam estar 40°C, agora está um dia de Outono, sai de Évora  dois dias antes, preparado para um calor abrasador, de manga cava e calção, no dia da prova, na partida, á minha volta, a maioria equipava de corta vento, pensei que estava a começar com o pé esquerdo, mas a corrida é mesmo isto.

09.00h da manhã, toca uma corneta, nem há contagem decrescente, comecei a correr de mochila numa mão e MP3 na outra, lá me organizei, a maioria ruma no sentido da água na esperança de apanhar a areia menos pesada, o meu instinto enviou-me na direção das dunas, tinha medo de molhar os pés, conseguia perceber que existia um rodado de trator até onde a vista alcançava, talvez fosse sinal de uma areia mais compacta, menos pesada, por ali decidi que ia ser o meu caminho.

Era o primeiro das dunas, não levava ninguém a minha frente, olhava para trás e percebia que não seria assim tão descabido correr ali, pois eram bastantes os atletas que seguiam atrás de mim, olhava para a esquerda e percebia que o ritmo era igual ao de quem corria mesmo junto a água.

Objectivo número 1, cumprir os 43km sempre a correr, sem paragens, divididos em 3 etapas, km14, km28 e voar até a meta, dividir a prova em três fazia-me esquecer os 43km de uma acentada só, olhava para Tróia, já se avistava, desde o primeiro passo de corrida, mas sempre no mesmo sítio, nunca mais perto, o km14 teimava em não aparecer, não sabia quanto tempo levava, nem que distância percorrida tinha, só sabia que as pernas estavam transformadas em duas vigas prestes a partir, antes do km14 uma espécie de cãibras, choques, fadiga muscular, era impossível, sentia-me tão bem que não queria acreditar, mantive o ritmo, aí está ele km14, uma água rápido rápido, sem parar e siga, hora de comer, uma barra, um gel, faltam 14km para a próxima meta, a coisa corria muito muito bem, os atletas estavam perdidos uns dos outros por várias centenas de metros, há muito que não via o grupo da frente, mas há muito também que não via a cauda da prova.

Um velho "além", cuidado, não vás no encalço dele, normalmente a experiência leva a melhor sobre os novos, ele ora andava ora corria, percebi claramente que sabia o que ia a fazer, demorei bastante até o alcançar, mas percebi que era seguro continuar com ele, perguntou-me que distância tínhamos, não sabia, mas eu presumia que levavamos aí uns 25km, ele afirmou que era possível, pois íamos com 3.10h de prova, ui, o que é que você me foi dizer, aí deitei a toalha ao chão, contava com menos 40 minutos  percorridos, a Comporta, km28, estava lá a minha mulher, á chuva coitada, deu-me ânimo, disse que estava a correr bem, respondi-lhe em tom irónico "despachate daqui a uma hora estou lá" sabendo perfeitamente que no mínimo precisava de mais 1.40h para completar a prova, a seguir á comporta, depois de tanta poupança, chegava a hora de gastar toda a força que tinha poupado, grande sorte, a areia junto a água estava quase direita, decidi então deixar as dunas e correr junto a água, já havia bastantes atletas a começar a caminhar, comprometi-me comigo mesmo de que tinha de passar 10 atletas nos próximos 14km, assim foi, corri até QUASE rebentar, a 8km da meta tive de caminhar, o coração queria salta-me pela boca, o dia negro, virou um dia de calor brutal, conseguia sentir o sol a queimar a pele e o sal a queimar a vista, esqueci-me de comer, o corpo estava a acusar a falta de combustível, decidi comer uma barra e um gel, não me restava grande coisa a não ser chegar ao fim, mas o fim teimava em nunca se aproximar, fui passando atletas, fui dando força, perguntava se estava tudo bem, as caras de alguns mostravam que estavam quase quase a deixar-se vencer pelo calor e pela areia pesada, tentei manter-me concentrado no que ia a fazer, só a minha prova importava e estava a sentir-me tão bem, a meta estava ali, no cruzar da areia, sabia que era lá que estava.

MÚSICA, oiço música, bora, bora, bora, acelera, está no fim, despejo os bidons, tiro todo o peso que posso, vejo o laranja da meta, MAIS UMA ULTRA FEITA!!!

Conseguiste, a ULTRA MARATONA ATLÂNTICA, ESTÁ FEITA, ainda antes da chegada está a minha mulher, disse-me "passaste bueda gente", cheguei de peito cheio 💪💪💪

Meta cruzada, medalha cobrada, a minha mulher apareceu e estragou o meu sonho, quando me disse que o carro estava parado na praia aí a uns dois km's da meta, apeteceu-me chorar, mas já tinha a medalha ao peito, estava na hora de comemorar.

Foi brutalmente duro, brutalmente difícil, brutalmente desgastante, mas foi também BRUTALMENTE ALTAMENTE 😂😂😂

Um conselho para quem queira ir a Ultra Melides-Troia, arranje um psicólogo e não um Personal Trainner, pois sem cabeça, ali, ninguém chega a meta.

#NOSVAMOSLAESTAR





Portugal 281+ Ultramarathon

Bem vindos amigos, á mágica Pt281+ Ultramarathon Sentem-se, confortáveis, vou tentar levar-vos a viajar numa das maiores aventuras qu...